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Colégio e Igreja do Carmo


O COLÉGIO DE NOSSA SENHORA DO CARMO DE COIMBRA

NOTAS DE LEITURA


Remonta a 1540 a fundação, pelo bispo do Porto D. Frei Baltazar Limpo, de um colégio, edificado na Rua da Sofia e destinado aos clérigos da diocese portucalense estudantes na Universidade recentemente transferida para Coimbra pelo rei D. João III. O colégio veio a ser entregue, poucos anos depois, à Ordem dos Carmelitas Calçados, sendo incorporado na Universidade em 1571, com a faculdade apostólica de conferir graus académicos aos religiosos portugueses dessa ordem.

Na primeira campanha de construções, ainda sob a égide do bispo do Porto, foi construído o noviciado,  concluído em 1548, e o dormitório e  demais  instalações colegiais.  Na década de noventa iniciou-se a segunda fase das obras, promovidas pelo  bispo resignatário de Portalegre D. Frei Amador  Arrais, igualmente religioso carmelita e ilustre humanista, a cuja iniciativa se deveu,  de 1597 a 1600, a construção da igreja (sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição), do claustro e da sala dos actos grandes,  ornamentados ao longo dos dois séculos seguintes por valiosos retábulos, esculturas, pinturas  e painéis de azulejos.

O decreto ditatorial de  29 de Maio de 1834, ao extinguir as ordens religiosas encerrando as suas casas, abriu novo período da história do edifício carmelita.

A Igreja do Carmo foi entregue à Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Coimbra pela Carta de Lei de 15 de Setembro de 1841; por sua vez, a Carta de Lei de 23 de Abril de 1845 entregou à mesma Ordem o edifício do colégio, aliás bastante degradado, para nele instalar o seu hospital para irmãos pobres. Tendo exigido de início custosas reparações,  só veio a ser aberto em 14 de Maio de 1852 (sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição) após novas  reparações impostas pelos graves estragos causados pelas ocupações militares da guerra civil de 1846.

Não é fácil, à falta de elementos documentais esclarecedores, averiguar com exactidão como seria a edificação original. Uma interessante fotografia, de data anterior à demolição do Mosteiro de Santa Cruz, em 1876, para a construção dos Paços do Concelho, mostra o edifício de rés-do-chão, primeiro e segundo andar, sem platibanda e de cércea mais baixa do que a actual, análoga à do vizinho colégio do Espírito Santo, verificando-se deste modo  quanto o prédio da Ordem Terceira veio a ser alteado, adquirindo a actual volumetria.  

Efectivamente as más condições do modesto hospital conduziram, a partir de 1877,  a uma profunda modificação da arquitectura do edifício, cujos efeitos são perceptíveis  actualmente nos desníveis criados para a construção das enfermarias do primeiro andar e no alinhamento assimétrico da entrada da sala dos actos grandes,  com lamentável sacrifício de um painel azulejar.

Instalado em melhores condições, o hospital foi reaberto em 8 de Junho de 1884, conjuntamente com um asilo para irmãos pobres. Assim funcionou, com maior ou menor desafogo de meios  mas convenientemente administrado e dotado de corpo clínico e de enfermagem, durante  praticamente um século, vindo a ser desactivado em 1952. Manteve-se ainda o asilo, que veio a dar origem ao actual Lar de Idosos da Ordem Terceira de São Francisco.

A Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, que durante muitos anos fez funcionar nas dependências da sua sede o  Patronato de Santo António, verdadeiro jardim de infância e actividade  de tempos livres para  numerosíssimas crianças da Conchada e das ruas mais pobres da Baixa, vestindo-as, complementando a sua alimentação e facultando-lhes aulas de primeiras letras, mantém, desde 6 de Novembro de 1993, um centro de acolhimento temporário para população sem abrigo, a Casa Abrigo Padre Américo, instalada no edifício do antigo noviciado carmelita. Neste quadro assistencial, a Ordem Terceira está qualificada como Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), com acordo com a Segurança Social.

Além do noviciado, restam ainda das instalações colegiais primitivas a bela galeria alpendrada do jardim anexo, a igreja, classificada como monumento nacional pelo decreto n.º 16/2011 de 25 de Maio, com a sua sacristia, o claustro, com o ádito da  antiga casa da livraria e a  pequena mas  valiosa capela anexa, da qual  se passa ao antigo refeitório (actualmente salão polivalente),  e a já referida sala dos actos grandes  (actual  sala do Definitório da Ordem Terceira).

São numerosos os trabalhos de historiadores de arte, arquitectos e outros especialistas acerca do que ainda se conserva  deste precioso testemunho religioso e cultural. Nesse âmbito têm vindo a merecer  especial atenção os estudos consagrados à  sua riquíssima azulejaria.

Do período barroco, inserido na denominada Grande Produção Joanina (1725-1750), destaca-se o silhar de painéis com passagens emblemáticas da  Paixão de Cristo que revestem a capela anexa ao claustro.  Do período rococó (2.ª metade do séc. XVIII)  ressalta  o silhar que reveste as paredes da galeria inferior do claustro, sequência narrativa de vinte painéis  com episódios da vida do Profeta Elias.

O Conselho Directivo da Ordem Terceira, alarmado  há anos pelo estado de grave ruína dos painéis azulejares do claustro e da capela anexa, recorreu oportunamente aos Serviços oficiais que, em sucessivos relatórios técnicos, procederam a exaustivo levantamento das patologias, elaborando o conveniente caderno de encargos sobre o qual se realizaram  os importantes e dispendiosos trabalhos de restauro,  financiados na sua quase totalidade pela Venerável Ordem Terceira, com o auxílio de  um subsídio de uma instituição bancária.

É também muito rico o património pictural à guarda da Instituição. Sobressai neste âmbito a representação da parceria dos pintores Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão, integrados na tendência artística do maneirismo, que  realizaram numerosas obras em Coimbra a partir de 1597. A mais importante foi o retábulo principal da Igreja do Carmo, considerado pelos especialistas uma das mais notáveis realizações do maneirismo português. E expõem-se no salão polivalente da Ordem Terceira várias pinturas em madeira, dos mesmos autores, oriundas da Igreja de Santa Cruz, de que se destacam quatro grandes quadros que pertenceram ao antigo retábulo da capela-mor daquela igreja e se referem a duas legendas piedosas relacionadas com dois factos históricos: a descoberta  da Vera  Cruz por Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, no século 4.º, no decurso das  suas investigações acerca da localização e identificação dos Lugares Santos, e a recuperação da Vera Cruz pelo Imperador Heráclio,  após a sua vitória sobre os Persas destruidores da Igreja do Santo Sepulcro, no século 7.º.

Não sofrerá contestação, certamente, a importância que este conjunto arquitectónico e artístico assume no reconhecimento do complexo Universidade – Alta e Sofia como  património mundial pela  UNESCO!

               Adelino Marques

 



AZULEJARIA DO CLAUSTRO DO CARMO


Guia para uma visita

 

São já numerosos os trabalhos de historiadores de arte e outros especialistas acerca do que ainda se conserva  do precioso testemunho religioso e cultural que é o Colégio de Nossa Senhora do Carmo. Nesse âmbito têm vindo a merecer  especial atenção os estudos consagrados à  sua riquíssima azulejaria, em que avultam os azulejos que decoram o claustro e a capela anexa, recentemente restaurados a expensas da Ordem Terceira  que assim os salvou da ruina iminente.

Do período barroco destaca-se o silhar de painéis que revestem  as paredes da capela anexa ao claustro (capela doméstica) datáveis de c. 1730-1740, com figurações  emblemáticas da Paixão de Cristo. Do período rococó   ressalta  o silhar, datado de c. 1770 e  instalado nas paredes da galeria inferior do claustro, sequência narrativa de vinte  painéis  alusivos ao Profeta Elias, figura importante dos livros bíblicos.  É a esta última sequência que se convida o visitante a  dedicar a  atenção.

Cada painel (reproduz-se o painel n.º 7) contém uma cartela com uma breve frase em latim que remete para um trecho, quer da Bíblia (Antigo Testamento; Novo Testamento), quer oriundo de uma fonte extrabíblica (“Vitae Prophetarum”, de Santo Epifânio). Propõe-se uma tradução (supondo a visita pela direita, a partir da entrada):

  1. “Surgiu Elias, semelhante ao fogo, e a sua palavra ardia como um archote”. (Ben Sirá, 48, 1). 
  2. “Quando Elias nasceu, apresentaram-se certos homens, trazendo uma veste branca, e saudaram-no”.   (O aludido texto apócrifo do séc. IV relata a prova simbólica do fogo, inteligível  à luz do tema do painel n.º 1).
  3. “O pai de Elias apresentou-se [com Elias] em Jerusalém”. (Da mesma fonte).
  4. “Elias disse a Acab: ‘Pela vida do Senhor, a quem eu sirvo” […não choverá nestes anos senão à minha ordem]. (1.º Reis, 17, 1)
  5. “Fez-se ouvir a Elias a palavra do Senhor dizendo: Vai-te daqui”.   (1.º Reis, 17, 2-3).
  6. “Refugiado junto da torrente de Carith, Elias congregou alguns homens piedosos”.

         (1.º Reis, 17, 4-6).  [Tradicional ligação dos carmelitas aos antigos profetas].

  1. “Eis que subia do mar uma nuvenzinha, pequena como uma pègada humana”.

                 (1.º Reis, 18, 43-44).

[Na tradição carmelitana, a nuvenzinha, anunciadora da chuva salvadora após três anos       e meio de desastrosa seca, é vista como símbolo da Imaculada Conceição].

  1.      “Caminhando no deserto, Elias adormeceu à sombra de um zimbro”.   (1.º Reis, 19, 3-8).
  2.      “Partindo dali, Elias encontrou Eliseu a lavrar com doze juntas de bois”.

                (1.º Reis, 19, 19-21).

  1. “Elias edifica um pequeno santuário no monte Carmelo”.  (Da tradição carmelitana).
  2. “Os cães que lamberam o sangue de Naboth hão-de lamber também o teu sangue”.

 (1.º Reis, 21, 17-19). [Elias anuncia o castigo de Acab, que roubara a vinha a Naboth e depois provocou a sua injusta morte].

  1. “Farei cair sobre ti todo o mal e destruirei a tua descendência”.   (1.º Reis, 21, 21-22).
  2. “Não te levantarás [Rei Acazias – filho de Acab e tão malvado como este] do leito em 

que  estás deitado, pois morrerás”.  (2.º Reis, 1, 1-4).

  1. “Elias subiu ao céu em um redemoinho”.  (2.º Reis, 2, 1-12).  [Em rigor, este painel deveria

 estar depois do n.º 16].

  1. “Logo desceu o fogo do céu e devorou-o, com cinquenta companheiros”.

              (2.º Reis, 1, 8-10).

  1. “Se sou homem de Deus, venha o fogo do céu e devore-te, com os teus cinquenta

                  companheiros”.  (2.º Reis, 1, 11-12).

  1. “Na verdade, Elias há-de vir, e restabelecerá todas as coisas”.    (Mateus, 17, 10-13;

cfr.   Malaquias, 3, 23-24).

  1.    “O corpo do santo Profeta Elias foi abandonado na praça da grande cidade”.

                  (Apocalipse, 11, 7-9).

  1. “E passados os três dias e meio, um sopro de vida vindo de Deus entrou em Elias”.

                (Apocalipse, 11, 11).

  1.     “O santo Profeta Elias ouviu uma grande voz vinda do céu, que lhe dizia: sobe para

                aqui”.   (Apocalipse, 11, 12).

 

Construído com a igreja do Carmo (esta temporariamente encerrada por necessidade de obras de consolidação) no fim do século 16, o claustro seria, com os seus belíssimos painéis de azulejos,  peça importante do quadro formativo  dos religiosos carmelitas.  Como  pondera  a Doutora Diana Teresa Gonçalves dos Santos,  “o programa iconográfico do claustro do Colégio do Carmo é demonstrativo da valência catequético-pedadógica do azulejo enquanto veículo de mensagem. A função memorativa do azulejo foi posta em prática, de maneira a que no espaço central da vida do colégio fosse exposta e revelada a história do Profeta Elias, referência espiritual principal da Ordem do Carmo, por meio de um ciclo narrativo dedicado aos principais acontecimentos da sua vida. Essa concepção funcionou de maneira a que a comunidade dos religiosos escolares carmelitas revisse no decurso da sua rotina quotidiana – na qual o claustro funcionava como ponto nevrálgico sendo espaço de encontro, recreação e oração – os principais episódios da vida do seu fundador espiritual”.

  1. Marques

 

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Destacam-se, entre as obras consultadas:

 

Ana Paula Rebelo Correia – “Um ciclo do profeta Elias no claustro do Colégio de Nossa Senhora do Carmo – Contributo para o estudo iconográfico”; Monumentos. Lisboa – DGEMN, n.º 25 (2006).

 

Diana Teresa Fanha da Graça Gonçalves dos Santos – “Azulejaria dos séculos XVII e  XVIII na arquitectura  dos colégios das ordens religiosas em Coimbra”  - Dissertação de Mestrado em História da  Arte em Portugal, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto / 2007.

 

Virgílio Correia;  A. Nogueira Gonçalves  – “Inventário  Artístico de Portugal, Cidade de Coimbra”. Lisboa: Academia Nacional de Belas Artes. Vol. II/ 1947.