JORNADAS EUROPEIAS DO PATRIMÓNIO 2016

Pelo 4.º ano consecutivo, a Venerável Ordem Terceira de S. Francisco tomou parte nas Jornadas Europeias do Património promovidas pela Direcção-Geral do Património Cultural com um programa que, centrado no facto histórico da fundação da Ordem em 1653, com sede e cemitério em uma das capelas da Igreja de S. Francisco da Ponte, seguida de movimentada “peregrinação” pela Capela de Nossa Senhora da Conceição da Ponte, pela desaparecida Igreja de S. Cristóvão e pela Sé Velha, conduzindo, finalmente, ao Colégio e Igreja de Nossa Senhora do Carmo, incluiu duas importantes conferências científicas da Doutora Ana Luísa Santos e da Mestre Ana Margarida Dias da Silva e um breve apontamento de carácter histórico do Ministro Doutor Adelino Marques.

 


 

 

AS SUCESSIVAS SEDES DA VENERÁVEL ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO DE COIMBRA

(Palestra proferida na sessão pública organizada pela Venerável Ordem Terceira de S. Francisco sob o tema “Comunidade(s) em vida e na morte”, integrada nas JORNADAS EUROPEIAS DO PATRIMÓNIO 2016)

 

 

Por motivo de intervenções relacionadas com os importantes trabalhos que, sob a égide da Câmara Municipal, têm vindo a ser realizados na antiga igreja de S. Francisco da Ponte e se relacionavam de algum modo com a vizinha capela de Nossa Senhora da Conceição, propriedade da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, onde nos encontramos, tive há alguns meses a feliz oportunidade de visitar o interior da igreja conventual, guiado por amáveis membros da Equipa de Arqueologia da Divisão de Reabilitação Urbana (Dr.as Raquel Santos e Carmen Pereira) que me informaram da descoberta de sepulturas em uma capela outrora dedicada aos Santos Mártires de Marrocos e agora objecto da atenção especializada da equipa de arqueólogos.

Era já de muito antigo conhecimento que a Ordem Terceira de Coimbra, fundada sob a égide dos frades franciscanos em 5 de Janeiro de 1659 em resposta ao ideal de santificação pessoal centrado no modelo de S. Francisco de Assis, e à preocupação dos irmãos em acudir às necessidades dos mais desvalidos, tinha obtido dos frades para sua sede, por carta patente de 4 de Fevereiro de 1666, a concessão da primeira capela colateral do lado do Evangelho e, para cemitério, da parte do cruzeiro fronteira à mesma capela, até ao canto das escadas da capela mór.

Como referiu Joaquim Simões Barrico na sua “Noticia Historica da Veneravel Ordem Terceira de S. Francisco da Cidade de Coimbra e do seu Hospital e Asylo”, a capela da Ordem Terceira era magnificamente ornamentada e provida de boas imagens e alfaias. As paredes eram revestidas de azulejos (“Importou o azulejo, carreto e assentamento em 91$700 réis”, revela o citado autor), já em parte cuidadosamente destacados pelos técnicos camarários à data da minha primeira visita.

Nunca tinha entrado naquele monumento; apenas sabia, como toda a gente, que estava em péssimo estado de conservação à data da saída da empresa fabril que o ocupara ao longo de muitos anos. Mas fiquei impressionado ao tentar adivinhar quão belo ele teria sido, antes da desgraça cultural que foi efeito do decreto de extinção das ordens religiosas. Sabia o suficiente para me orientar no percurso; usufruindo, todavia, da amável companhia e dos esclarecimentos daqueles técnicos, caminhei até à capela referida, chegando à vista das doze campas rasas então a descoberto e já esvaziadas. Muita pena tenho de não dispor de máquina fotográfica que, munido da devida autorização, me possibilitasse obter uma imagem!

Fui informado de que, entre os restos mortais já remetidos a estudo antropológico, tinham sido descobertos porções de vestuário de burel e fragmentos de um cordão, insígnia característica da Ordem Terceira.

Em visita mais recente tive a oportunidade de observar o interessante resultado dos trabalhos, em curso, de requalificação da capela de Nossa Senhora da Conceição, situada imediatamente a seguir à dos Santos Mártires, com os belos frescos da abóbada restaurados e com as paredes agora revestidas dos azulejos que ornamentavam outrora a capela que foi, durante 85 anos, a primeira sede da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco.

Como é do conhecimento público, tem vindo a nossa Câmara Municipal a realizar importantes trabalhos de requalificação do que foi o convento de S. Francisco da Ponte, e reserva certamente para a profanada igreja que dele fazia parte um destino de carácter cultural, o que merece inequívoco aplauso

Ora a Venerável Ordem Terceira de S. Francisco está indelevelmente ligada à história da nossa cidade, não apenas na linha da sua natureza de instituição religiosa, mas também no quadro da assistência na pobreza e na doença, do amparo da infância desvalida e do apoio de cidadãos sem abrigo. Por isso creio bem que os factos apontados nestas desataviadas notas justificarão alguma forma de registo na parede da capela dos Santos Mártires de Marrocos da antiga Igreja de S. Francisco da Ponte!

A falta de sacristia, de sala de despacho e de arrecadações conduziu ao pedido da transferência da VOT para a capela de S. Pascoal Bailão, junto à entrada do templo; satisfeito o pedido em 26 de Setembro de 1739, foi possível a construção da actual capela de Nossa Senhora da Conceição, onde nos encontramos, mediante a ampliação da capela de S. Pascoal.

Assim tomou forma a segunda sede da VOT, sendo lançada a pedra fundamental em 9 de Março de 1740 e benzida a capela em 28 de Dezembro de 1743. É ainda bem visível a sua função cemiterial, prolongada até à legislação oitocentista que veio proibir as inumações nas igrejas.

 

Um lamentável conflito com os Frades Menores do Convento de S. Francisco, motivado por questões de interpretação de competências, conduziu em 1785 à saída dos Irmãos Terceiros e sua domiciliação sucessiva na já desaparecida Igreja da Colegiada de S. Cristóvão e, a seguir, na Sé Velha que, após a sua desafectação como catedral, já fora sede da Misericórdia e igreja paroquial da Colegiada de S. Pedro. Só em 1816, sanado enfim aquele conflito com a intervenção do Papa Pio VI, regressou a VOT à sua Capela da Ponte, com luzidas festividades.

Esteve a VOT nesta capela até ao ano de 1837, data em que, havendo o Definitório da Ordem requerido ao vigário capitular da diocese de Coimbra a concessão da igreja de Nossa Senhora do Carmo, do extinto Colégio dos Carmelitas Calçados, para os actos de culto, foi deferida a concessão e tornada definitiva depois da promulgação da lei de 13 de Setembro de 1841. E a Carta de lei de 23 de Abril de 1845 concedeu para hospital o edifício contíguo do Colégio, assim se tornando realidade um antigo desígnio de acção beneficente em favor dos irmãos mais desfavorecidos que veio a perdurar exactamente um século, ao longo do qual se lhe adicionou em 1887 a instituição do Asilo para irmãos pobres, antepassado do actual Lar de Idosos, e do Patronato de Santo António para o ensino das primeiras letras aos filhos dos irmãos mais carenciados. Em data mais recente, já em Novembro de 1993, ajuntou-se a criação da Casa Abrigo Padre Américo, centro de acolhimento temporário para população sem abrigo, instalada no edifício do antigo noviciado carmelita.

Assim se desenrolou até aos nossos dias a movimentada peregrinação da VOT!

 

Adelino Marques